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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Porque alguém pediu… II


O vento frio, impiedoso, causa uma lágrima que me escorre pela face. Não a limpo deixo cair. O cheiro da terra molhada faz-me lembrar aquele dia em que me levaste ao teu lugar favorito. Perdidos no meio da serra de Sintra num recanto que só tu parecias conhecer, deitei-me no chão a teu lado após muito insistires. Ainda me lembro de ver daquele céu carregado por entre as árvores e de como começou a pingar… e como não me deixaste levantar e quiseste que sentisse a chuva a cair em mim, em ti, em nós… como se fossemos chão. Aquele cheiro que sempre gostei de terra acabada de molhar ganhou outra dimensão nesse dia.
Continuo preso às memórias de ti… parece que não há nada que faça que não me lembre de ti e do ano que partilhaste a minha vida.
Subo a escadaria à minha de dois em dois degraus e sinto os músculos das pernas a queixarem-se… em que ei de pensar para te esquecer? Cheguei ao topo, nem sei bem onde estou mas a vista é bonita. Estou perdido como na vida e só me resta seguir em frente. A chuva volta a cair. Levanto o capuz do casaco e continuo a andar em frente sem destino aparente. Por fim chego a um largo… ah já sei onde estou! Agora vou por ali. Apetece-me um café e conheço um bom aqui perto, que não serve a nossa marca… e assim não me lembro de ti (mas já me lembrei!).
Entro no café. Sento-me ao balcão e peço uma bica e um pastel de nata, têm bom aspecto. Agarro a chávena para aquecer as mãos. Por momentos pareço conseguir apena saborear o café e o pastel, não pensando em mais nada mas é uma doce ilusão... o mundo volta quando a empregada ao balcão me apresenta a conta. Olho para ela. Nada tem a ver contigo, é morena, de feições carregadas e olhar amorfo. Recordo os teus olhos verdes, penetrantes… bolas! Lá estou eu a pensar em ti de novo… levanto-me e saio do café. Já parou de chover mas sinto as solas escorregar na calçada polida. Continuo a andar, “onde vou agora?” pergunto-me sem vontade de me responder…
Dou comigo num largo que não tenho memória da conhecer mas até na nossa cidade podemos descobrir coisas como muito bem me mostraste por várias vezes… pergunto-me o que me terias chamado a atenção ao ver o que vejo? A árvore com o banco por baixo ou o bebedouro? Os motivos da calçada? Não sei…  talvez tenha perdido a capacidade e adivinhar o que pensas agora que não te tenho a meu lado…



FATifer

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Porque alguém pediu…


Olho o último pingo de café que cai na chávena. Sinto o cheiro do café acabado de fazer a invadir o espaço. Sinto o calor quando pego na chávena e sabe bem porque está frio…
A memória é uma coisa lixada, não consigo beber uma chávena deste café sem me lembrar dela… nem com um oceano inteiro a separar-nos tu me deixas em paz!
Lembro-me do dia que nos nossos olhares se cruzaram naquela esquina. Posso dizer-te quantas beatas havia no chão, afinal os cigarro eram todos meus! Tu passaste e algo de mágico aconteceu, de repente perdi o fôlego, não conseguia respirar depois do teu olhar deixar o meu. Não foi do cigarro como gostavas de dizer brincando, foste tu. Tentei mexer-me e caí. Soltaste uma gargalhada sem olhares para trás. O que hoje me parece cruel, na altura pareceu-me divino. Quando finalmente me levantei já mal te conseguia avistar, cambaleando segui-te pois, naquele momento, nada mais conseguia fazer. Tinhas virado a esquina seguinte e só de relance te vi entrar num café mais à frente. Tentei acelerar o passo e quase caí de novo. Quando entrei no café não te vi. Olhei para todos os lados freneticamente e não te vi! Quando começava a duvidar da minha sanidade mental apareceste atrás do balcão de uniforme. Por impulso sentei-me ao balcão à tua frente. Olhaste para mim como que a perguntar o que pretendia. Como nada disse perguntaste e ouvir a tua voz deixou-me ainda mais incapaz de falar. Viraste-te e tiraste um café que me colocaste à frente sem açúcar, pensava eu que terias adivinhado como o tomo mas não, havia um cesto no balcão para tirar se quisesse. Peguei na chávena, sorvi um golo e finalmente consegui dizer um “obrigado”. Sorriste e retorquiste "é um 1,20€". Retirei o porta moedas de forma atrapalhada do bolso, estendi-te as moedas e o meu olhar prendeu-se no teu uma vez mais. Por momentos pareceste tão hipnotizada quanto eu mas depois viraste-te para a caixa registadora para guardar as moedas e devolveste-me um talão de despesa. Nem reagi procurando de novo o teu a olhar que me negaste.
Não sei explicar o que se terá passado pois a memória seguinte que tenho de nós é de acordar a teu lado numa cama que não era a minha. O raio de sol descia duma nesga de estore aberto, e passava pelos teus cabelos, assim ainda mais doirados, antes de chegar à cabeceira da cama acima da minha cabeça. Lembro-me das tuas costas nuas e de te ouvir dizer um “bom dia” num tom que ainda hoje não encontro palavras para descrever.
Tudo o que se passou depois entre nós é melhor nem recordar … num grande esforço faço fast forward para o dia que disseste que ias para São Francisco e relembro a tua cara quando que te respondi que não ia contigo. Aquele misto de incredibilidade, raiva e confirmação que sabias que te vi no olhar.
Foi bom enquanto durou, só falta conseguir deixar-te para trás… para isso talvez seja bom deixar de comprar este café!



FATifer

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

“Um Encontro Perfeito” – desafio (parte V)

Vem à varanda e sente o vento quente daquele fim de tarde de verão, lá se foi o efeito refrescante do gel de banho, pensa. Olha ao longe o sol a querer mergulhar no mar e sorri. Volta para dentro e dirige-se à garagem, pelo caminho passa pela cozinha e agarra numa mala térmica que coloca na bagageira do carro. A porta da garagem abre e arranca. O caminho pela marginal é feito num instante. Estaciona o carro ao lado do carro dela e dirige-se ao elevador. Na porta do apartamento um bilhete “entra que estou a tomar banho”. Timing perfeito, pensa. Usa a chave para entrar, como fora instruído e dirige-se à cozinha colocando o conteúdo da mala térmica no frigorífico.


- Estou no banho mas podes subir.
- …vou já, estou só despir o casaco.

Sobe as escadas e dirige-se ao quarto, espreita pela porta da casa de banho. Na banheira circular cheia de espuma está uma mulher de longos cabelos castanhos avelã, olhos azuis, rosto angelical. Vê a ponta de um joelho e as mãos e braços aparecendo ocasionalmente por debaixo do mar de espuma.

- …chegaste cedo.
- mas já estavas à espera, deixaste o bilhete.
- Já te conheço… queres entrar?
- … tentador mas já tomei um duche ainda à pouco. Acaba que eu fico ver-te.
- Voyeur!
- … diz o roto ao nu.
- A nua ao vestido neste caso concreto.

Soltam ambos uma gargalhada.

- Bom vou lá abaixo fazer uma chamada, acaba o teu banho…
- … fazer uma chamada?... hum… vou fingir que acredito… que é que tu andas a magicar?
- Eu? Magicar?
- Sim tu… vai lá que ainda vou escolher o que vestir.
- Não preciso assim de tanto tempo para a chamada.

Voou um sabonete em direcção à sua cabeça mas ele desviou-se a tempo.

- Estás a melhorar a pontaria!
- Vê lá se queres que acerte!
- … fica para a próxima, até já…

Saiu da casa de banho e houve um compasso de espera antes de se ouvir os seus passos escada abaixo dirigindo-se à cozinha. Ela levantou-se, saiu da banheira e foi até à cabina de duche para passar o corpo por água. Sente os músculos contraírem e a pele arrepiar-se enquanto a água fria escorre pelo seu corpo. O duche frio dura apenas alguns segundos, sai da cabine de duche e olha-se ao espelho enquanto se enxuga. Lembra quantas vezes ele tomou esse papel e quão bom é ser enxugada por ele, “espero que tenha uma boa desculpa para se ter escusado a isso hoje”, pensa enquanto se observa ao espelho, as suas formas, muitos já disseram perfeitas. Pendura a toalha e vem para o quarto, em cima da cama um lindo vestido branco cumprido e leve, quase transparente. Como é que adivinhou que ia escolher este? Pergunta-se enquanto escolhe a lingerie a condizer. Veste-se calmamente e perfuma-se. Desce as escadas devagar. A voz melodiosa de Esperanza Spalding enche o ambiente numa música calma que reconhece “short and sweet” mas dele nem sinal. Olha para o terraço. Uma mesa e duas cadeiras ladeadas por uns archotes acesos parecem esperar por eles. Em cima da mesa um frapê onde se distingue o topo de uma garrafa com a rolha pronta a ser tirada, ao lado uma taça com morangos e dois flute. Ao longe o sol acabado de mergulhar no mar ainda tinge o céu de um laranja vivo especialmente na linha do horizonte. Dirige-se para o terraço na expectativa… não o vê, passa pela mesa e não resiste a tirar um morango que trica com aquela suavidade selvagem que só as mulheres sabem ter. Dirige-se até à ponta terraço sentido a brisa quente de verão moldar-lhe o vestido ao corpo. Ouve finalmente a rolha a saltar como esperava e o som de copos a encher. Vira-se, ele tem uma rosa na boca e da sala ouve-se os primeiros acordes de um tango. Ela sorri e dirige-se a ele, tira-lhe a rosa com a boca, ele agarra-a e começam a dançar. O espectáculo seria digno de ser visto mas não têm público, interpretam a música como dois amantes que são, na cara de ambos é evidente o extremo prazer que têm de dançar juntos. A música acaba, a flor está desfeita no chão de tantas passagens de boca em boca. Olham-se nos olhos, abraçam-se e vêm até a mesa para se refrescarem com champanhe e deliciarem com os morangos.

- Estiveste bem… não estava à espera desta.
- É bom ainda te conseguir surpreender…
- …humm estes morangos estão divinos…
- …ai sim? Deixa provar…

E come o resto do morango que ela ainda tinha por fora da boca tudo misturado com um beijo.

- Tens razão… estão óptimos!
- Lambão…

Os morangos e o champanhe não duraram muito, ela olha-o com cara de quem quer mais, ele pega na mão dela e dirigem-se à cozinha. Em cima da bancada está um pote com mel, uma taça com chocolate derretido e ainda outra com morangos.

- Vamos queimar estas calorias todas?
- …era essa a ideia, porquê não te agrada o programa?
- Acho que falta qualquer coisa…

Ele dirige-se ao frigorífico e tira uma taça com chantilly e outra garrafa de champanhe.

- … melhor assim?
- Sim, agora está melhor…

Pegaram nas taças e rumaram ao quarto. A noite ainda estava a começar e muitas danças havia ainda pela frente…


Fim

FATifer

“Um Encontro Perfeito” – desafio (parte IV)

Parou a moto à frente do que fora outrora o alpendre, diante si os restos da cabana em escombros. Nunca mais tinha tido coragem voltar a este lugar. Perguntava-se porque o teria feito? Sim o bilhete, era real, a sms… também… mas… porque estava ali? O que esperava encontrar?


Não queria pensar no que tinha acontecido naquela noite mas estando ali, era difícil evitar. Até hoje tinha-se sempre focado na parte boa, aquela visão de Catherine deitada no chão em frente à lareira era como a queria recordar. Desligou a moto, retirou o capacete. “Agiste sem pensar”, pensou para consigo. “O que estás aqui a fazer?”, “Quem estará por detrás disto?” perguntava-se olhando em volta. Por fim cede e recorda os eventos daquela noite. O grupo de homens que entrou na cabana. A forma com a levaram para um carro. O prazer com que lhe haviam batido e deixado por morto. Recorda depois a forma como matou um a um todos eles, ainda consegue ver as suas caras suplicando pela vida. Mas todos disseram que ela estava morta e por isso deixou de procurar… Apetece-lhe gritar e até podia mas para quê? Há anos que a sua vida era só trabalho para não ter de se lembrar dela e agora estava aqui, de volta a este local, qual marioneta no jogo de alguém, mas quem? Quem poderia ainda conhecer aquela sua história?

O som de um carro ao longe fá-lo voltar ao presente. Fixa o olhar no caminho. À medida que o som se torna mais próximo, um sorriso nasce no seu rosto. Reconhece o som, é um Jaguar E type. Alguém tem um sentido de humor perverso mas está decido a pagar para ver quem.
O carro aparece por entre as árvores e pára a uma distância que não lhe permite identificar quem está atrás do volante. A porta abre-se, a luz da lua cheia ilumina o vestido branco…

- Catherine?...
- …
- … é impossível! Tu estás morta!
- Não Ricardo… tinha de pagar a minha dívida, disse que traria o jag da próxima vez…
- …mas…
- Não me peças para explicar. Sei tudo o que fizeste. Como me procuraste. Mas eu não podia deixar que me encontrasses. Acredita em mim e perdoa-me.
- Catherine…

Estavam frente a frente, olhos nos olhos. Ele estende a mão e toca-lhe no rosto, ainda na dúvida se o sentiria. Limpa a lágrima que escorria já face abaixo e abraça-a. As bocas encontram-se sedentas uma da outra. Os corpos colam-se. As mãos passeiam-se e os corpos acusam o seu toque. Ouve-se um tiro e no mesmo instante os dois amantes jazem inanimados ao luar.



- Acaba assim? Não gosto!
- …não?
- Não!
- … mas sou eu que estou a escrever…
- Sim mas pediste a minha opinião.
- É verdade…
-… já sabes que gosto de finais felizes e este é muito triste! Acho que levaste a tua mania de surpreender o leitor longe demais.
- Aceito o teu ponto de vista mas vais ficar assim. Agora tenho de desligar, obrigado pela opinião. Beijo.
- E …


João desligou, tinha de acabar de formatar a história para enviar para o editor. “Falta aqui um ponto e um espaço, isto tem de ser em itálico, pronto terminei, agora é só enviar. Já está.” Pensava alto à frente do pc. Levanta-se e dirige-se à casa de banho. Despe-se e entra no duche. Deixa a água quente escorrer pelo corpo. Agora que tinha acabado não queria mais pensar em nada, concentra-se apenas na água, o som que faz ao cair na sua pele.
A custo fecha a torneira. Estendo a mão pega no toalhão para se enxugar. De volta ao quarto abre o armário de escolhe umas calças e uma camisa, olha para baixo para escolher os sapatos e lá se decide. Coloca as roupas em cima da cama e os sapatos no chão e volta à casa de banho para se perfumar. De volta ao quarto veste-se em frente ao espelho pensando no que tem planeado para essa noite.


Continua…


FATifer

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

“Um Encontro Perfeito” – desafio (parte III)

- My darling Catherine… vamos… ao nosso lugar…

- Ao nosso lugar?

Ele pára, vira-a para ele e olhando bem no fundo dos olhos dela diz…

-Por uma vez vais deixar-me fazer-te uma surpresa, pode der?

O sorriso dela combina com o brilho no olhar…

- Vou?...
- Vais… e agora vamos voltar para o carro que não quero que te constipes.
- Yes sir!

Retomaram o caminho de volta ao carro abraçados. Ele sentia o coração dela ligeiramente acelerado, sabia o quão difícil era para ela fazer algo que não soubesse o que era. Não lidava bem com surpresas, por isso estava algo espantado de ela não ter oposto mais resistência ou pelo menos insistido na pergunta. Entram no carro.

- E…
- E o quê?
- …onde vamos afinal?
- Arranca que eu vou fazer de gps.

Ela soltou uma gargalhada e arrancou com um ligeiro exagero de acelerador. Seguem em direcção à serra de Sintra com ele sempre a dar indicações imitando uma voz robótica.

De moto, todos estes anos depois, relembra as indicações que lhe dera enquanto refaz exactamente o mesmo percurso. Já está perto e mergulha de novo nas recordações daquela noite.

- É ali ?
- Sim.
- …o que é aquilo?
- … é o nosso lugar, como te disse.

Ao longe avistava-se o que parecia uma cabana de montanha, quase toda em madeira apenas uma chaminé de pedra era visível.

- Só me trazes a sítios chiques.
- …não julgue pelo embrulho, por favor.

Pararam o carro em frente ao alpendre e saíram. O ar húmido deixou-a arrepiada de novo. Antes de a cobrir de novo com casaco, passa os olhos pelo seu decote e repara nos mamilos hirtos. Ela finge que não percebe para onde ele está a olhar preferindo dirigir-se à porta. Entram, ele acende uma luz e dirige-se à lareira do lado esquerdo da divisão. Ela olha em volta. Era difícil classificar a decoração até porque numa única divisão, além da lareira, havia cama mesa e tudo o mais. Na parede adjacente à lareira um mapa ladeado de duas pistolas e uma catana, tudo de aspecto antigo, prendem a sua atenção.

- Eram do meu bisavô…
- O quê?...
- O mapa, as pistolas e a catana eram do meu bisavô materno.
- …ah mas eu não perguntei nada.
- Sim mas estavas a perguntar-te.
- … tens a mania que me conheces mas enganas-te. Eu até estava a olhar para …
- Para o ramo de flores secas no aparador ali ao canto certo?
- … pensei que ias dizer a cama…
- … darling, também olhaste para ela mas conheço-te o suficiente para saber que seria o mapa era a primeira coisa que prenderia a atenção nesta sala.
- Pronto tens razão… e essa lareira já está acesa ou não?
- ..está quase.

Olhou em volta e lá viu a ramos de flores secas que ele mencionara e que ela ainda nem tinha reparado. Dirigiu-se ao aparador e ficou a olhar uma escultura em pau preto, um corpo feminino estilizado numa pose muito sensual.

- Vais dizer-me que foi o teu bisavô que fez?
- Não foi um amigo dele. Esse homem era um artista, aquele quadro que vês por cima da cama também é dele.

Sente-se um aroma a pinhas, a lareira estava acesa finalmente. Ela vira-se, olha o quadro que ele referira, um pôr do sol na savana pintado em cores quentes em traços largos e fortes.
Sente as mãos dele na sua cintura e o queixo ombro. Ele murmura-lhe algo ao ouvido e dirigem-se para o canto oposto à lareira onde está um frigorífico e um armário por cima de um lava-loiça. Ele liga uma luz por baixo do armário para iluminar a bancada. Abrem-se portas e gavetas.

- Hum… sim… e…
- Ah estava a ver que não vias…
- Pois pode ser também…

Enquanto ele corta o queijo e o presunto aos cubinhos e colaça num prato ousado na bancada ao lado do frigorífico ela pega nas duas peles que enfeitavam o sofá e coloca-as no chão em frente à lareira e desliga a luz de cima. Ouve-se o som de uma rolha. Ele vira-se com o prato numa mão, os copos e a garrafa na outra e tem de fazer um esforço para não deixar cair tudo. No chão, deitada em cima das peles, ela olha-o com desejo. A luz da lareira atrás de si ilumina os seus cabelos ruivos que parecem em chamas, as suas formas parecem realçadas pela luz tremilicante da lareira.


Continua…


FATifer

sábado, 18 de fevereiro de 2012

“Um Encontro Perfeito” – desafio (parte II)

Ouve-se um som e sente um pequeno tremer no bolso. Lentamente retira o telemóvel do bolso e lê a sms que acabara de receber:


“…acorda… não duvides porque sabes que é verdade o que estás a pensar, decidi pagar a minha dívida. Beijo”

Instintivamente olha em volta como que a confirmar que não está a ser observado. Embora neste caso mais parecesse que estavam a ler-lhe o pensamento. Volta a olhar o cartão, sim é a letra dela, não há dúvida!
Baixa a cabeça e fecha os olhos. Inspira profundamente e sente o ar passar entre os dentes semicerrados enquanto expira. Não há como resistir, e porquê tentar se esperava por este dia há anos?!
Pousa o telemóvel e o cartão em cima da cama e despe-se. Liga o sistema de som com o i-pod em shufle e dirige-se para o duche. A voz de Dianna Krall enche o espaço “I’ve got you under my skin…”
De olhos fechados deixa a água cair-lhe nos ombros e sente o corpo relaxar. Tenta não pensar em nada e apenas sentir a água quente.
Sai do duche e reentra no quarto, voz de Ana Moura inicia o “fado da procura”…
Dirige-se ao roupeiro tira umas calças de ganga e uma camisa branca. Vai-se vestindo enquanto recorda o caminho que tem de para percorrer. Desce até à cozinha, “let go” dos Frou Frou ouve-se no sistema de colunas pela casa toda. Abre um croissant que recheia com queijo fresco e salmão fumado, sumo de lichia para acompanhar. Agora ouve-se a voz de Dolores O’Riordan “stay with me”. Acabada a refeição leve dirige-se à garagem, pelo caminho desliga o sitema de som, pega na carteira, telemóvel, blusão, capacete e luvas. Entra na garagem e fica a olhar, qual levar? Decide-se pela Ducati SC1000. O som “desmo” enche o espaço e a alma. Calça as luvas e coloca o capacete enquanto a porta da garagem abre, monta e arranca, destino Sintra.
Percorre as ruas de Lisboa em direcção à marginal, sim por esse caminho vai demorar mais mas tem tempo. Pelo caminho recorda o que se passara anos atrás. Está de novo sentado num banco na Praça do Império, em Belém, vê uma mulher alta, com longos cabelos ruivos, pele branca, olhos verdes dirigir-se para ele. Ainda está a apreciar o seu vestido prático mas elegante e as formas que cobre quando ela lhe pergunta, num tom jocoso, onde são os Pasteis de Belém. Sorriem e beijaram-se.

- …que olhar era aquele que me estavas a fazer?
- …olhar? Qual olhar?... este?
- Sim esse… este vestido é assim tão transparente?
- Não, fica-te muito bem…
- Pois mas já estavas a ver-me sem ele.
- … calma lá chegaremos…
(afirmara com um sorriso e um olhar confiante)
- … querias… mas quem te disse que vais ter?
(riposta ela com um sorriso maroto)
- …vamos lanchar… tudo a seu tempo darling.

Puxou-a pela mão e dirigiram-se aos pastéis de Belém.

Um carro fez uma travagem brusca à sua frente que o obrigou a desviar-se, por momentos voltou ao presente mas depressa está de novo naquele fim de tarde…

Depois dos pastéis e do café dirigiram-se ao carro dela.

- Já te disse que adoro este teu carro?
- Sim, todas as vezes que andas nele…
- É um clássico…
- Sim até compreendo que não se veja muitos DB5 neste país…
- Entre este Aston Martin e o Jaguar E type não sei qual gosto mais…
- Ok, da próxima trago o jag…

Ele solta uma gargalhada enquanto entram no carro. Arrancam.

- Onde vamos?
- Darling… que tal irmos ver o por do sol ao guincho?
- Parece-me muito bem.
- Ainda bem…

Entram na marginal e desfrutam da paisagem, o céu quase está limpo, apenas se avistam umas nuvens altas mas a visibilidade é estupenda e a vista deslumbrante. Abrem as janelas e sentem a aragem fresca e o cheiro a mar.
Chegados ao Guicho estacionam e saem em direcção ao areal. O vento fresco deixa-a arrepiada. Ele retira o casaco e cobre-a. Sentam-se olhando o mar, ouvindo o som das ondas, sentindo o cheiro a maresia e  uma gota ou outra trazidas pelo vento a bater nas suas faces. Ele está por trás dela e abraça-a, ela vira a cabeça… olham-se… apesar de nada dizerem, conversam com o olhar. Por fim trocam um beijo, doce, quente, prolongado.

- Adoro não conseguires evitar corar quando te beijo.
- …meu querido, há coisas que não se controlam…

O reflexo do pôr do sol nas nuvens fazia-las mudar de cor de laranja fogo a carmim ou seria salmão? Não fosse uns laivos de cinza aqui e ali pareceriam farrapos de algodão doce tingido de rosa…

- …por mais que aconteça todos os dias não me canso de assistir a este espectáculo…
- Sim foi uma óptima ideia vir aqui, embora esteja a ficar gelada.

O sol mergulha de vez nas águas e a luminosidade começa a diminuir.

- E agora onde vamos?


Continua…


FATifer

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

“Um Encontro Perfeito” - desafio

Enquadramento:


Este texto nasce do desafio da Orquídea Selvagem. Por mais que reafirme que não é meu hábito responder a desafios, desta vez abro uma excepção porque me apetece (e porque ela merece). Ora, como penso que todos concordarão, o conceito de “perfeito” é altamente subjectivo, tal como os conceitos de “lamechas” e “romântico” e outros que tais. Assim façam os juízos que entenderem que eu escrevo o que quero, porque me apetece!
Como diria o outro, qualquer semelhança com a realidade é pura ficção…


Era um fim de tarde como tantos outros, voltava para casa mergulhado nos pensamentos do que tinha deixado por fazer. Caminhando pelas ruas em passo estugado estava quase alheio ao que o rodeava, como que em modo automático, tudo era apenas interpretado como sendo ou não um potencial obstáculo à sua passagem, nada mais. Por mais que tivesse olhado não viu o canteiro de flores multicolores, o rapaz que passeava o cão, a mulher que levava o gato ao colo, o mendigo que olhava o copo com umas moedas no fundo, o desenho da calçada onde faltava uma pedra, os raios de sol a passar por entre as copas das árvores. Tudo parecia a preto e banco ou nem isso. Caminhava decidido mas na sua mente ainda estava à frente do computador, a analisar a melhor forma de colocar aquele gráfico ou qual a ordem mais conveniente dos slides. Decididamente o percurso a pé que se obrigara para desligar do trabalho não estava a dar resultado mas já está perto de casa.
De repente um aroma suave e floral desperta-lhe os sentidos. Olha para trás mas já só consegue distinguir o som de saltos altos na calçada ao dobrar da esquina. Pára e fica a fitar a esquina ao fundo da rua estreita que estava a subir.

“Não pode ser” pensa, “este perfume, só ela o fazia!...”.

Parte dele quer voltar-se para cima e continuar a pensar nos slides mas continua estático a olhar o fundo da rua, onde o som dos saltos deixou de ser perceptível. Corre e dobra a esquina, nada vê. Teria sonhado?
Volta a dobrar a esquina e sobe a rua, agora mais desperto ao que o rodeia, por mais que intrigado com a forma como havia “despertado”. Olha o candeeiro antigo e a vidraça partida daquela janela onde em tempos estava uma velhota a ver quem passava. Sente a calçada irregular debaixo dos pés e a brisa na cara. Pára à porta de casa, tira a chaves do bolso, abre a porta e entra. Coloca o casaco no cabide que pendura no bengaleiro à entrada e sobe a escada para o quarto. Ao entrar no quarto vê um pequeno envelope em cima da cama. Dentro do envelope, sem nada escrito por fora, encontra um cartão onde se pode ler:

“22h no nosso lugar… beijo”

O envelope cai a seus pés e fica imóvel a olhar para o cartão na sua mão.



Continua…


FATifer

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um que conto - parte 5

- Sim Joana lembro-me desse dia como se fosse hoje… tantos anos depois o pôr do sol continua lindo...
- Pois continua…
-… a que horas é o jantar surpresa?
- Qual jantar surpresa?
- Aquele tu e o resto da família andam a organizar e pensam que eu não sei.
- Miguel, tu faz de conta que não sabes, não desapontes os nossos netos…
- O nossos netos já devia saber o avô que têm…
- …raio do homem não lhe escapa nada!


Miguel sorriu, o tempo podia ter passado mas havia coisas que não mudavam e uma era aquela expressão que continuava a adorar provocar na cara Joana.
O sol mergulhara nas águas uma vez mais… arrancaram de volta a casa.
Ao entrar Miguel fingiu surpresa ao ver filhos, netos e alguns amigos todos juntos a recebê-lo.

- O meu coração já não tem idade para estas coisas!
- Meu pai não diga isso…
- Pedro meu filho, só porque és cardiologista não penses que sabes mais que o teu pai sobre este meu coração.
- Pois pode não saber mais que o pai do seu coração mas sabe muito bem ver quando o pai está a fingir.
- Mas que é isto? Desde quando os meus filhos me tratam por você, para começar? E quem é que está a fingir?
- Desculpa paizinho estava a brincar com o tom que usaste com Pedro… mas não negues que já sabias!
- Eu sei Isabel, minha filha… eu tentei mas não fui convincente não foi?
- Não avô, não foste mas quando é que soubeste?
- Um detective nunca explica os seus truques meu neto!
- Não será um mágico?
- Olha a minha neta armada em esperta!
- Tenho a quem sair não é avó?
- Engraçadinha… só te perdoo porque me fazes mesmo lembrar tua avó.
- Sim, não foi só a mãe que saiu linda, não é meu marido?
- Pois não minha excelentíssima esposa.


Miguel cumprimentou os amigos com um sorriso nos lábios, cada um acabava por simbolizar algo que tinha feito na vida, além de conquistar o amigo em si. Uns eram colegas de profissão que respeitava e admirava, outros companheiros dos vários hobbies que alimentava e outros companheiros dos vários hobbies que alimentava e outros ainda, pessoas que conhecera por caprichos da vida que soubera tirar proveito, tendo sempre em mente a frase da canção: “…é que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há!”.

A um canto da sala uma enorme mesa de buffet brilhava com todo o tipo de manjares dos mais simples aos mais elaborados. Ao lado uma mesa com bebidas para todos os gostos. Os netos sabiam que o avô gostava assim e tinham-se esmerado.

As pessoas iam petiscando e conversando em pequenos grupos. Ter a casa cheia de vida era algo que agradava a Miguel. Ao ver a família toda junta ficava com um brilho no olhar que, não sendo o que tinha quando olhava para Joana, era igualmente especial.

A noite corria bem, todos se divertiam… a dada altura Joana olha em volta e não vê Miguel. Vai até à porta do terraço e lá está ele com o seu copo de wiskey na mão, sentado na espreguiçadeira contemplando a lua cheia. Joana aproxima-se e senta-se na espreguiçadeira a seu lado, ele olha-a e tocam sorrisos. Miguel passa a mão pelos cabelos de Joana agora brancos como o luar e ela afaga-lhe a barba também grisalha.



- Voltando aquele dia, não posso deixar de perguntar se já encontraste resposta para a pergunta certa?
- …ainda não totalmente… por mais que já tenha sido e continue a ser muita coisa: teu marido, pai dos nossos filhos, avô dos nossos netos, etc… continuo a querer ser mais coisas, continuo a querer tudo o que esta vida me possa oferecer ainda!



Fim

FATifer

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mais um que conto - parte 4

- Joana que cara é essa?
-… estava só a pensar a sorte que tenho de te ter encontrado um dia… a sorte que tenho de me saberes ler tão bem…
- …e tu a mim Joana. Achas que é sorte? Lembra-te do que me disseste pela enésima vez ainda hoje de manhã no guincho… somos um!
- Sim meu amor mas…
- Mas o quê? Não vais pôr em causa que nos encontraríamos neste mundo, vais?
- … pois mas…
- Joana desde a primeira vez que te vi que sabia que serias minha e eu teu… não sei explicar mas sabia!
-… eu também, quando senti o teu olhar… quando pela primeira vez nos olhámos olhos nos olhos, perdi todas as dúvidas que poderia ter alguma vez tido… mas continuo a achar que foi sorte termo-nos encontrado… uma sorte que agradeço todos os dias e ainda mais em momentos como este…
- Joana…


Continuavam a olhar-se olhos nos olhos e Miguel tinha uma expressão que Joana conhecia bem, uma expressão que sempre tinha quando achava que não valia a pena verbalizar porque o seu olhar já era suficiente para ela perceber o que ele queria dizer…


O dia continuava frio e cinzento mas para aqueles dois parecia um dia de Verão luminoso e quente. Levantaram-se e foram até ao terraço. Abraçados contemplam um raio de sol que insiste em passar pelas nuvens e iluminar uma árvore isolada no meio do relvado em frente.


- Joana…
- Sim…
- …queres?
- Quero.

Voltaram para dentro, trocaram de roupa e foram até à garagem. Entraram no M5 e partiram. Estacionaram no parque do aeródromo, cumprimentaram o segurança e seguiram em direcção à pista. O helicóptero estava pronto à espera deles. Entraram e passado o ritual de verificações, descolaram. A paixão pelo voo era partilhada, ambos sabiam pilotar e adoravam aqueles passeios. O tempo tinha melhorado o que permitia uma maior e melhor visibilidade.

- Miguel se calhar tens razão… a força que nos une é tal que encontrar-nos - íamos de qualquer forma.
- … eu sei que tenho razão.
- Convencido!
- …
- … sinto um alívio estranho… enquanto vinha no carro dei comigo a pensar em nomes para o nosso filho…
- Filha… e vai chamar-se Isabel.
- Como sabes que é uma filha?
- …não sei… apenas sei… e também sei que vai ser ainda mais bonita que a mãe… até tenho pena dos homens deste mundo…
- Isabel é um lindo nome…
- …sabia que concordarias… é o teu único defeito é não te chamares Isabel…
- Oh Miguel tu tens cada uma!

Miguel solta uma gargalhada enquanto fixa o horizonte, nem precisa de olhar para ela, sabe exactamente a expressão que ela tem, aquela que ele adora provocar.
Seguem ao longo da costa observando as praias desertas…
O pôr-do-sol já não demora muito, decidem pousar para apreciar o espectáculo. Contemplar o sol a mergulhar nas águas é algo que fazem sempre que podem. Por mais que se repita todos os dias é um acontecimento que parece não perder a sua magia.


FATifer

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Mais um que conto - parte 3

- Joana… acho que está na altura…
- Na altura de quê?
- … de termos a conversa que sempre adiámos…
- Qual conversa? Tu hoje estás mesmo mais estranho do que o costume!...
- …eu quero ser pai e tu, não queres ser mãe?
- Ah, assim sim, directo ao assunto, este sim é o Miguel que eu conheço e amo!
- …
- Meu amor… sabes que sim, que quero ser mãe… e esta conversa estava adiada por ti, tu é que disseste que não estavas preparado…
- … mas agora estou…
-… estás?
- … quero dar-te um filho…
- Miguel… sabes que nada me fará mais feliz… mas depois do que acabaste de me dizer não posso deixar de colocar em causa a tua motivação…


Miguel levantara-se e fora até à janela. Joana posa o copo que voltara a pegar para beber o vinho que ainda restava, levanta-se e abraça-o, colocando a cabeça nas suas costas. Miguel levanta o braço direito e a cabeça de Joana passa a repousar no seu peito enquanto ele lhe afaga os cabelos cor de mel. Olham-se nos olhos e ele explica-lhe que, por mais que até possa ter alguma razão o desejo dele é genuíno também. Estes dois sempre conversaram muito bem com o olhar…


Era hora de almoçar, encaminham-se para a cozinha. Vão tirando coisas do frigorífico aparentemente ao acaso. Ele corta a cebola depois o tomate, ela faz o refogado enquanto ele lava o arroz.

- O que vamos fazer a essa peixe?
-… hum… acho melhor fritar…
- Muito bem, o arroz está quase, prepara uma salada enquanto eu frito então…


Posta a mesa, escolhido o vinho, sentam-se a almoçar e continuam a conversa…


- Queres ser pai… para poderes responder à tua pergunta dizendo “sou o pai de …”?
- Joana…
- … pronto desculpa, não coloco mais em causa as tuas motivações. Então e agora?
- Agora para começar deixas de tomar a pílula…
- Sim Sr. Doutor, até aí já tinha chegado!
- Fui demasiado brusco na forma como disse?
- Digamos que da forma como começou este dia não pensei que estivéssemos a ter esta conversa como estamos mas já devia saber que se há coisa que não és, é previsível…

Miguel sorri enquanto pega nos pratos e leva para cozinha. Joana bebe o último gole de vinho que tinha no copo e distribui o vinho que sobrara na garrafa pelos dois copos.

- Limão, café ou cheesecake?
- Trás os três!
- Ok…

Deliciam-se com generosas bolas de gelado acompanhando com o resto do vinho e o pedaços de fruta que ele também trouxera porque ela gosta…


- Miguel… há coisas que não se conseguem explicar mesmo…
- Como assim?...
- Estava eu aqui consumida como te iria dizer e agora até vais gostar de ouvir…
- Joana estás grávida?
- Quando é que descobriste?
- Agora mas analisando houve na realidade pistas que só agora associo…
- …não sei o que dizer…
- Diz que estás contente! Diz que estás feliz! Diz-me que vou ser pai!

Miguel esticara os braços e tinha as mãos de Joana nas suas. O brilho no olhar, que sempre tinha quando a olhava, estava ainda mais intenso.

- Miguel… estou feliz que vais ser pai.
- Joana… vamos ser pais! Parece que estou a sonhar…


FATifer

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mais um que conto - parte 2


Joana entrou no carro e arrancou, sabia que ele a apanharia até porque não lhe apetecia andar depressa, mesmo sabendo que aquele carro não tinha sido feito para andar devagar. Poucos minutos depois Miguel já a ultrapassara acenando-lhe adeus. Quando chega a casa está a lareira acesa e dois copos de vinho lado a lado no chão… vai ser uma longa conversa…
Miguel entra na sala com um prato com queijos. Joana sorri e estende-lhe um copo.

- … tantos mimos, estás mesmo carente homem!
- Carente? Tens noção que o que dizes é paradoxal?
- E tu tens noção que te conheço? Quando mais queres atenção mais atenções tens, sempre foste assim…
- …
- Olha, aí tens um bom princípio de resposta à pergunta que dizes que te atormenta. Sim, porque se fosse a tua história que procuravas, bastava-te abrir os álbuns de fotografias…
- Pois, como disseste a pergunta está noutro plano… vim pelo caminho a pensar no que disseste e tens razão.
- Claro que tenho razão! O que me espanta é ter de ser eu a dizer-to… a angústia que te vi no olhar…
- Sim… não há motivo… eu sei… mas talvez por isso mesmo…


Estavam ambos sentados no chão em frente à lareira, copos na mão enquanto ia comendo os pedaços de queijo que ofereciam um ao outro.


- Se isto fosse um daqueles filmes românticos, lamechas, e fosses tu uma donzela sonhadora, dizia que a resposta que te chegaria seria: “és a minha outra metade” e pronto!
- Pois mas..
- Mas não és uma donzela sonhadora, és um lindo homem que não devia ter essas dúvidas existenciais… ou pelo menos não devia deixar que elas o afectassem a este ponto, pois tê-las pode não só ser inevitável como saudável.
- Com uma mulher assim não preciso de psicólogo, na verdade.
- Engraçadinho, não fujas à questão…
- Não estou a fugir…
- O que motivou a tua inquietação?
- …
- … diz lá que sei que já analisaste e sabes muito bem a causa.
- …
- … não me digas que ainda é por causa daquela criança?
- … sim…
- Oh Miguel, tu fizeste tudo o que podias por aquela menina, tu és um excelente cirurgião! Não havia mais nada que pudesse ser feito, todos os teus colegas concordaram…
- Havia sim! Eu podia…
- Miguel! Olha para mim!
- …mas
- Tu és apenas um ser humano, dotado de um dom especial e muito talento mas humano ainda assim.
- Joana… ela…eu…
- Miguel, já te disse para não te culpares!
- Eu sei mas sabes que detesto errar.
- Mas tu não erraste homem! Todos os teus colegas confirmaram que fizeste tudo o que podias.
- Mas não foi suficiente…
- Miguel, eu sei que nunca te tinha morrido ninguém na mesa de operação mas…
- Mas tenho de aceitar, não é? As pessoas morrem…
- Por mais que te custe sim, é verdade…
- Oh Joana mas tu não olhaste nos olhos dela…
- Mas vi os olhos da mãe que, mesmo com toda a dor ainda me agradeceu porque tu tinhas feito o possível para salvar a filha. Ela estava muito mal… aliás só de pensar nisso até fico mal disposta.

Miguel coloca o copo vazio ao pé do copo de Joana que estava no chão perto do prato e abraça-a. Ficam os dois a olhar as chamas…



FATifer

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mais um que conto - parte 1

Olhou-se no espelho e perguntou a si mesmo: “quem és tu?”, como que a querer ver e não só olhar… molhou a cara com a água que aprisionara nas mãos em concha. Fechou a torneira e voltou a olhar-se no espelho. “Quem és tu?”, repetiu para si mesmo, mesmo sabendo que nem tentaria responder-se…
Entra no quarto… um raio de luz, que insiste em passar pelas frinchas do estore mal fechado, desenha os contornos de um corpo feminino por baixo dos lençóis mas nem essa visão afasta a pergunta de si para si e que não quer responder… “quem és tu?”...
Volta para trás, vai até à cozinha, abre o frigorífico e tira um iogurte líquido: laranja, cenoura e ginseng, “depois disto tudo ainda tem iogurte?” Pensaria, se não estivesse completamente absorto em não responder à pergunta que continua a martelar-lhe a mente desde que acordara… “quem és tu?”. Bebe o iogurte mecanicamente enquanto prepara um copo de leite e umas torradas bem tostadas como ela gosta…


- Pequeno almoço na cama… que bom…
- …
- Que cara é essa?
- A minha…
- Miguel... eu conheço-te… o que tens?
- Nada…
- Prefiro que me digas que não queres falar…
- Não é nada. Já passa…
- As torradas estão óptimas, não queres uma?
- Não. … Obrigado…
- Onde vais?
- Já volto…


Desceu até à garagem e entrou no carro, os pneus chiaram com o arranque brusco. Se o carro fosse um tudo nada mais alto teria batido na porta que ainda estava a subir quando passou.
Era domingo, dia dos aselhas mas também de menos trânsito, conduz aparentemente sem destino, não pensa onde vai apenas vai. Só tem um objectivo, o mar, tem de ver o mar.

Chegado ao Guincho estaciona o carro, sai e fica parado olhando o mar revolto. O vento norte afaga-lhe a face e ecoa nos seus ouvidos num uivo familiar…

“Quem és tu?”… a pergunta parece não o querer deixar…


- Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Virou-se repentinamente e olhou-a.

- Joana?! Como adivinhaste? Como vieste até aqui?
- Eu conheço-te Miguel, somos um… e vim de moto.
- … esse poema…
- O nosso favorito… só Pessoa consegue escrever assim!
- Como soubeste que precisava de o ouvir
- Somos um… o teu olhar disse-me.

Abraçam-se.

- Por vezes esqueço-me que és parte de mim, desculpa.
- … e agora já podes dizer o que tens?

Ele sorri e olha-a nos olhos… beijam-se.

- Acordei com uma pergunta que a que não consigo dar uma resposta que me satisfaça…
- …e qual é?
-“Quem és tu?”

Ela sorri.

- Por momentos ainda pensei que fosse algo de grave …
- … não gozes.
- Miguel, quantas pessoas achas que realmente se satisfazem, no sentido que sei que te referes, com as respostas que encontram para essa pergunta?
- Não sei…

Viram-se ambos na direcção do mar e ficam a contemplar em silêncio…

- A pergunta está errada!
- O que queres dizer com isso Joana?
- Quero dizer que devias antes perguntar-te: “quem queres ser tu?”.
- …
- …e que tal se continuássemos esta conversa à frente da lareira? Gosto muito do Guincho mas está frio!
- Ok, leva o carro que eu levo a moto.
- Mas não tens o teu capacete nem blusão…
- Estão na mala do carro, faz o que te digo que estás a tremer.
- Sim meu senhor!



FATifer

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Cap. 7


Tom acaba a pizza e depois de comer a sobremesa que a AICA sugere, dirige-se à sala de lazer pois apetece-lhe experimentar aquelas máquinas “velhinhas” de flippers.


O Philip e a Lisa conversam online, revivem histórias da infância, visitas de estudo, peripécias várias que viveram os três. Lisa sempre pareceu distante mas ao mesmo tempo sempre estivera mesmo ali e é isso que Philip se apercebe, ao vê-la recordar cenas que ele gostava de comentar com o Tom.


- Gordon vem comigo, vamos tirar o Tom do bunker.
- O que vais fazer Patricia?
- Já vais ver… vens?
- Alguma vez te disse que não?


A Miss Anderson e o Tenente McNeelly entram no Hummer e arrancam. O percurso não é grande mas de noite a temperatura não é propriamente agradável para passeios a pé.


- Tom.
- Sim AICA.
- Acho que deve ir à sala de controlo.
- Porquê?
- Uma das câmaras exteriores está a mostrar uma mensagem que lhe é dirigida.
- O quê?!

Tom estava a beira de bater o record da máquina mas as palavras de AICA fazem-no parar de jogar e dirigir-se apressadamente para a sala de controlo. Ao entrar olha os monitores e num deles vê a Miss Anderson à porta do bunker com uma folha de papel na mão onde se pode ler:

“ código de acesso nível 5:
AE342890D7 ler:
Alfa, Eco 342890 Delta 7”

- AICA, se te disser aquele código passo a ter autorização nível 5?
- Sim Tom.
- Pedido de alteração de nível de autorização.
- Código de acesso, por favor?
- Alfa, Eco 342890 Delta 7
- Código de acesso aceite – tem acesso nível 5.
- AICA, abra a porta para o exterior, por favor.
- Sim Tom – contagem terminada, porta aberta.

À porta do bunker o Tenente McNeelly estava já a caminhar de volta ao Hummer e fazendo sinal a Miss Anderson para vir com ele quando ouvem a porta a destrancar.

- Não acredito!
- Eu disse-te que o rapaz te ia surpreender Gordon.
- Pois, já devia saber que não devia duvidar do que me dizes…

Miss Anderson sorri ao ver a cara do Tenente McNeelly contemplando a porta a abrir-se.

“ Bem-vindos, podem entrar…”

- Tom?
- É o rapaz?
- Sim…

A Miss Anderson e o Tenente McNeelly entram e dirigem-se à sala de controlo.

- Tom?
- Miss Anderson…
- Este é o Tenente McNeelly.
- Muito prazer Tenente.
- O prazer é meu ainda não acredito que tenha conseguido entrar aqui, posso perguntar-lhe como o conseguiu?
- Pode mas não sei se devo responder, um mágico não deve revelar os seus truques.
- Tom…
- Estava a brincar Miss Anderson. Foi simples, um pouco de pó de talco e de filme… aliás acho que vos posso mostrar, não é AICA?
- Sim Tom.
- Passa as imagens de como eu entrei aqui, por favor.
- Sim Tom.
- Engenhoso sim senhor, estava um dos meus homens a dizer para ligar ao MacGyver e afinal ele já estava cá dentro…
- Viste Tom és o MacGyver.
- Sou?
- És meu rapaz… e agora vamos sair daqui?
- Vamos mas queria apenas fazer-vos uma pergunta. A sala de controlo ao lado está desactivada?
- Sim mas porquê?
- Nada, curiosidade de como seria…
- Querias ver os mostradores iluminados era?
- Sim…
- Podemos ligar…
- Não sei se será boa ideia Miss Anderson.
- Porque não Tenente McNeelly?
- Tal como esta questão dos botões de emergência de fecho, não sei como se comportarão os circuitos…
- Se me permitem uma opinião…
- Sim AICA.
- Segundo os meus dados não vejo qualquer problema.
- Ok então vamos fazer a vontade ao Tom.

Passaram os três à sala de controlo antiga. O Tenente McNeelly foi ligar o quadro eléctrico com cara de contrariado. Todos os mostradores se iluminaram como Tom já esperava mas de repente:

- O que é aquilo?
- O quê?
- Aquele mostrador… 29 anos 11 meses 51semanas 6 dias 23 horas 59 minutos 35 segundos.
- Eu bem disse para não ligarmos isto!!
- AICA, AICA!
- Sim.
- O que se passa?
- Nada a instalação está a funcionar a 100%.
- Como assim?

Correram os 3 para a sala de controlo moderna onde confirmaram o que estavam a suspeitar – a porta estava de novo fechada.

- AICA!
- Sim.
- Abre a porta exterior.
- Não posso.
- Não podes? Temos todos autorização para te dar essa ordem!
- Sim mas a sala de controlo antiga tem prioridade.

O Tenente McNeelly correu para sala ao lado e dirigiu-se ao quadro eléctrico. Ouviu-se um barulho… quando o Tom e a Miss Anderson chegaram à sala o Tenente McNeelly estava caído no chão.

- AICA.
- Sim.
- O que se passou?
- Não posso permitir que desliguem o quadro.
- O quê? Tu é que…
- Miss Anderson, estamos fechados aqui por 30 anos?!





- Tom. Tom. Tom!
- Hã… o quê? … mãe? Mas...
- Oh filho, estavas a gritar…
- Mas… o bunker… a Miss Anderson…
- Oh filho essa bendita visita é só depois de amanhã! Dorme…


Fim


FATifer

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Cap. 6

- AICA o que me podes dizer dos ataques que estão registados na consola.
- Estão a tentar penetrar no sistema através do exterior mas não conseguirão passar as defesas.
- E tu podes comunicar com o exterior?
- Sim, se devidamente autorizada.
- Deixa-me adivinhar, nível 5.
- Não, nível 3.
- Bolas!
- Tens alguma ideia do que aconteceu, de porque é que eu estou aqui?
- Sim eu monitorizo constantemente esta instalação, sei tudo o que se passa.
- Então sabes que não devia estar aqui!...
- Sim.
- Então podes abrir a porta…
- Não sem estar devidamente autorizada.
- Aaarrrr… para que estou eu aqui a argumentar com uma máquina!

Tom levanta-se da cadeira que voltara a ocupar depois de ter ido à cabina de scan. Coloca a mão no rectângulo e abre a porta que dá directamente para as camaratas. Dirige-se à cozinha, apetece-lhe comer qualquer coisa.

- Posso sugerir uma pizza do mar, é o especial do dia.
- … mas que raio… AICA?
- Sim Tom.
- Pensei que só estavas na sala de controlo.
- Eu estou em todo lado nesta instalação.
- Pizza do mar com que então…
- Sim.
- Ok venha ela.
- Estará pronta em 5 minutos. Para beber?
- Coke.

Tom olhava a cozinha, o forno que estava a trabalhar e a sua coca cola que surgira a um canto da mesa. Tudo tinha sido pensado mesmo.

- AICA…
- Sim Tom.
- É uma pena não poderes fazer-me companhia…
- Sim desejares posso.
- Como assim?

De repente surge projectada no meio da cozinha, ao lado do balcão, uma imagem de uma esbelta mulher com um fato de cozinheira.

- Mas que raio?
- É a minha projecção holográfica.
- Hum… e não podes mudar esse fato?
- Com certeza.
- Assim está melhor… não está perfeito mas melhor.


A imagem de AICA mudou para um fato que se assemelhava a uma farda tirada de um filme de ficção científica.
Ouve-se um sinal sonoro.

- A sua Pizza está pronta Tom. Não se esqueça de usar as luvas para manusear o tabuleiro.
- Sim mamã.
- Não sou sua progenitora Tom.
- Progenitora! AICA temos de te arranjar uma linguagem mais descontraída! Aproveita para ver o significado de “ironia”, que foi o que usei quando te chamei “mamã”.
- “Ironia”… entendido…
- Vou comer aqui mesmo… AICA que tal uma música ambiente?...
- O que deseja ouvir?
- Sei lá… escolhe tu.
- Tenho 1 milhão de músicas em arquivo, escolha aleatória activada.
- Ok, deixemos à sorte…

Começa-se a ouvir “Anything but ordinary” de Avril Lavine, Tom sorri e dá uma dentada na sua pizza, enquanto olha para aquela imagem holográfica que parece observá-lo.



- Estou? Lisa?
- Philip?
- Sim… então como está esse tornozelo?
- Está melhor…
- Já vi o teu mail, depois do jantar estarei online…
- Ok… o que estará o Tom a fazer?
- Está a jantar como nós estaremos em breve.
- Achas?
- Não tenho dúvidas, se há coisa que o Tom não dispensa é comer e de certeza que já assaltou aquela cozinha.
- Sim… ele sabe desenrascar-se, lá isso é verdade… lembras-te daquela vez que se perdeu naquela visita de estudo e o foram encontrar a comer cogumelos?
- Lembras-te disso?
- Sim, como poderia esquecer a forma como conseguiu explicar ao professor de biologia que sabia que não eram venenosos!
- Ah, sim… o Tom decora coisas que não lembram a mais ninguém…
- Pois é … bem, tenho de ir jantar, até mais logo, online.
- Sim até mais logo…



Na base militar o Tenente McNeelly apresenta a Miss Anderson as hipóteses de intrusão no bunker que a sua equipa está a ponderar. Todas envolvem condutas de ar mas nenhuma agrada por completo pois as hipóteses de sucesso não são grandes.

- Continuam a trabalhar a pensar que o Tom não conseguiu entrar na sala de controlo?
- Sim, não me parece que o tenha conseguido.
- Pois eu acho que sim e que devíamos tentar comunicar com ele através das câmaras…
- Podemos… e o que dizemos? E como ele vai responder?
- Pois… não sei…
- Vamos comer qualquer coisa?
- Vamos…



Em casa do Tom há um sentimento de vazio materializado no seu lugar à mesa desocupado. O seu pai e a sua mãe comem em silêncio ainda a tentar digerir o que lhes fora contado por Miss Anderson. Não ligaram a televisão por não quererem ver algum suposto especialista a opinar sobre as soluções que o filho terá e o que poderão fazer para o tirar de lá. Sabiam que tudo não passaria de especulações que não estavam para aturar. As imagens e entrevistas feitas aos colegas de Tom são mostradas até à exaustão.



(continua)

FATifer

sábado, 24 de janeiro de 2009

Cap. 5


Ficou quase um minuto a olhar para aquele relógio em contagem decrescente, a ver os segundos passar, até voltar a olhar para o monitor da consola principal. Analisa o que lá está escrito em busca de como poderá facilitar a entrada a quem está a tentar o acesso do exterior. À partida, quem está a fazer aqueles “ataques” está a tentar tirá-lo dali. Senta-se e começa a tentar entender a forma de interagir com aquele sistema, não tem teclado nem rato…


- … e a Miss Anderson estava onde quando isto aconteceu?
- Na sala de controlo juntamente com a Miss Pedington, o Philip e o Tom, o rapaz que ficou lá dentro.
- E o senhor Mr. Smith, onde estava?
- Estava na sala de lazer com o resto do grupo.
- E o que me pode dizer sobre o incidente que provocou o accionar do botão de emergência de fecho?
- Distraí-me por uns segundos e foi o suficiente, o Mike é sempre a mesma coisa, adora provocar e o John não tem paciência… não sei o que dizer mais…


Em cada uma das salas apurava-se as versões dos acontecimentos aos olhos de cada um…


- Meu tenente e se entrássemos por aqui, por esta conduta de ventilação?
- E como se propõe neutralizar os feixes de laser e…
- Se cortássemos a energia aqui e ali…
- Ficava se luz na conduta mas os feixes continuariam activos pois a energia que os alimenta vem de dentro da instalação.

O Tenente McNeelly estava reunido com a sua equipa de operações especiais à procura de opções para entrar no bunker. Não era tarefa fácil pois esta instalação tinha sido concebida de raiz para ser impenetrável…
Em paralelo continuavam as tentativas de intrusão no sistema de controlo do bunker mas sem sucesso. Todo o sistema fora também concebido para ser impenetrável do exterior pois admitiu-se que, uma vez fechado, do exterior só viriam ameaças.

- O meu tenente não tem o telefone do MacGyver? Esse gajo dava jeito aqui…
- Muito engraçado sargento, faça você de MacGyver e encontre-me uma forma de entrar no bunker!
- Se fosse o Rambo rebentava com a porta!
- Pois e levava com a porta de emergência em cima, para além do que temos as nossas ordens de causar o mínimo de estragos na instalação, como sabe. Deixem-se de fantasias e arranjem-me uma solução!
- Sim meu tenente, vamos arranjar.


Dentro do bunker o Tom lamentava o facto de a Miss Anderson não ter chegado a explicar nada sobre a sala de controlo. Como é que se interagia com a máquina afinal? Pousou o cotovelo no tampo do que para ele era uma mesa mas de repente tudo se ilumina e ouve-se uma voz:

- Welcome to the mountain refuge.
- Hum… what the… who are you?
- I’m the Artificial Intelligence Control Assistant for this facility. You can call me AICA. You do not mach any of the user profiles in memory, should I open a new one for you?
- Aaa… where… aaa… yes, yes…
- Name?
- Tom Dunner.
- Rank?
- Aaa I don’t have one.
- Civilian then.
- I need you palm and retinal scans to complete your profile, please go to the booth at the back of the room.
- Ok …
- Place your right hand on the black rectangle open your eyes and do not move.
- …
- Ok, scans complete. How should I address you Mr. Dunner?
- Please call me Tom.
- Ok, how can I help you Tom?
- Can you open the door?
- Which one?
- The door to the outside?
- Not without proper clearance.
- Proper clearance?
- Yes, in order to override a lockdown you have to have clearance to issue that order. Your profile was created by me and I can only grant level 1 clearance.
- Level 1, what good is that for?
- You have access to this control room and the rest of the facility and that is it.
- Which level clearance would I need to open the door to the outside?
- Level 5.
- So I’m really trapped here for a week?...
- No, the counter states 6 days 20 hours 37 minutes e 57 seconds.

(nota de autor: as próximas conversas entre o Tom e a AICA serão escritas em português, imaginem-nas em inglês como esta)


Na base militar os interrogatórios tinham terminado finalmente. Os alunos estavam a ser encaminhados de volta ao auto-carro excepto o Mike que ficaria retido por um dia, a ver se aprendia a lição. O Philip amparava a Lisa que ainda coxeava ligeiramente, embora o tornozelo já não estivesse tão inchado.

- Miss Anderson, como é que eu vou explicar esta situação aos pais do Tom? Ainda vão processar a escola!
- Calma Miss Pedington, eu já coloquei os pais do Tom ao corrente da situação e vou convosco para falar com eles pessoalmente.
- Miss Pedington, os pais do Tom são boas pessoas, eles não a vão culpar…
- Sim Philip mas…
- Calma que tudo se resolve.

- Philip, oTom está fechado lá dentro por minha causa…
- Não digas isso Lisa, foi…
- Foi por minha causa! Se não tivesse torcido o tornozelo e … olhado nos olhos dele…
- Tu gostas dele, não gostas?
-…
- Lisa estás corada…
- Philip és um insensível!
- Eu? O que é que eu fiz?
- Não sabes que isso não se diz?!
- Aaa … pronto desculpa…
- Sim eu gosto do Tom e depois? Não posso?
- Ah! Eu sabia! Claro que podes e deves!
- Ai é? Devo?
- Sim, já que não gostas de mim o Tom será a única outra pessoa que te merece naquela escola.
- Convencido!
- Factos, minha cara, factos.
- Oh Philip tu as vezes…
- O que foi agora…
- Nada…
- Onde está a piscina?

Lisa sorriu mesmo já conhecendo esta resposta que Phillip sempre usava, por detestar que lhe respondessem: “nada”.
Fizeram a viagem de volta a casa no autocarro sentados ao lado um do outro a conversar. Já eram colegas desde a primária mas nunca tinha falado tanto tempo seguido. O Philip estava contente por confirmar, uma vez mais, que Lisa não era só uma rapariga bonita, aquela cabeça não servia só para segurar os longos cabelos dourados… sempre tinha tido um fraquinho por ela mas também sempre tinha visto que ela preferia o Tom, é a vida. Lisa diz-lhe como sempre admirou a amizade dele com Tom, a forma como parecem irmãos. Ele responde com um sorriso.
A viagem de volta foi bastante mais calma, o único grande sobressalto terá sido à saída da base militar onde estava já o circo mediático montado mas a escolta militar ajudou a furar o “bloqueio”.
Ao chegarem à porta da escola havia um mar de gente entre jornalista e pais. Muitos estudantes não se importaram e até gostaram de ser entrevistados. O John era o mais pretendido à falta do Mike. A Miss Anderson seguiu num Hummer preto da escolta com a Miss Pedington e o Mr. Smith para casa dos Dunner. O Philip ajudou a Lisa a evitar os repórteres e a encontrar a mãe que, por acaso, estava ao pé do seu Pai.

- Ligas-me…
- Ligo ou então falamos na net…
- Não sabes o meu contacto…
- Tens o meu mail, envia para lá que eu adiciono-te…
- Ok.
- Até logo Lisa e as melhoras.
- Obrigado por tudo Philip, até logo.

O beijo na face que recebeu de Lisa deixou Philip corado, a sua sorte foi que Lisa não chegou a reparar.

“Oh amigo fico-te a dever esta…”

Pensou ao mesmo tempo que tentava imaginar o amigo sozinho, fechado naquele bunker…



(continua)

FATifer

domingo, 18 de janeiro de 2009

Cap. 4


Olhou para o telemóvel, por descargo de consciência, sabia que não tinha rede.
Por mais que bater na porta fosse um método que considerava primitivo está na dúvida se o tentariam do outro lado, o que o leva a fazer um compasso de espera antes de se dirigir à sala de controlo. O raciocínio era simples, a haver algum local onde se poderia comunicar com o exterior o mais lógico seria que fosse lá, onde toda a informação chega!
À espera, a olhar para aquela porta enorme à sua frente, dá consigo pensando nos olhos da Lisa, na forma como o tinham hipnotizado... o Philip tinha razão, ela gostava dele... vendo bem, ela até era engraçadinha...


- Sim…
- Miss Anderson? General Patterson, US Army.
- Diga general…
- Dê-me um ponto de situação.
- O bunker está fechado e ficou um civil lá dentro.
- E os restantes?
- Os restantes estão bem, há apenas uma rapariga com o tornozelo torcido.
- Todos terão de ser interrogados!
- Sim general, eu sei o protocolo.
- Eu sei que sabe mas… bem, vou enviar o Tenente McNeelly para aí.
- Como queira General.

Miss Anderson desliga o telemóvel e pede licença à Miss Pedington e ao Mr Smith, que continuavam com cara de quem não acreditava no que estava a acontecer, e dirige-se aos homens que continuavam em sentido à espera de orientações:

- Meus senhores conhecem o protocolo, todos seremos interrogados… comecem a organizar as pessoas em grupos de 5. Vem aí o Tenente McNeelly e não quero ter de o aturar!
- Sim Miss Anderson (responderam em uníssono)

Os quatro homens começaram a organizar os grupos como lhes tinha sido indicado e Miss Anderson voltou ao pé de Miss Pedington e ao Mr Smith que estavam perto da Lisa e do Philip.

- Bem vamos lá sair daqui, temos que ir para a base para o interrogatório.
- E o Tom?
- Sim e o Tom?
- Calma, calma, já vamos resolver esse problema... tudo a seu tempo...
- Interrogatório?
- Sim Mr Smith é parte do protocolo, dado o que aconteceu. Não se preocupe apenas tem de ficar registado o que todos se lembram do acontecido.
- E o Tom?
- Miss Pedington, como já disse, já vamos tratar desse problema também. Por enquanto não há nada a fazer a porta está fechada e assim vai ficar uma semana.
- Mas…
- Vamos lá, acompanhem-me por favor…


Dentro do bunker, Tom começou a encaminhar-se para a sala de controlo enquanto relembrava cada passo da visita…passou pela sala de lazer em direcção às camaratas. Chegado às camaratas confirma o que já suspeitava e o preocupava, as portas para as salas de controlo estavam fechadas. À esquerda só se via o rectângulo preto que estaria ao lado da porta da sala de controlo actual e à direita estava a porta para a sala de controlo antiga, com o seu teclado numérico. Parecia não haver maneira de entrar em nenhuma das duas…


Cá fora os grupos de alunos foram encaminhados para as instalações da antiga base militar no sopé da montanha. À porta esperava-os o Tenente McNeelly com uma escolta de 4 homens.

- Miss Anderson.
- Tenente McNeelly.
- As salas estão preparadas.
- Os grupos estão feitos.
- Muito bem distribuam os grupos pelas salas e comece-se os interrogatórios.
- Vocês os 4 vão para a sala A e a Miss Anderson…
- Eu faço parte deste grupo.
- Como queira mas… preciso que me acompanhe primeiro, por favor.
- …
- Então Patricia, como foi acontecer isto?
- Gordon, já sabes que não gosto que me trates pelo meu nome aqui.
- Adoro quando finges não me tolerar…
- E eu detesto quando foges ao que combinámos!
- Pronto, ok… mas diz-me lá o que achas do rapaz que ficou lá dentro. Como será a melhor forma de o contactarmos? Se ao menos ele estivesse na sala de controlo…
- Se queres que te diga acho que ele vai conseguir lá entrar…
- Como?
- Eu mostrei-lhe…
- Ah é um dos que levaste lá dentro?
- Sim, é o que motivou o meu pedido de mostrar a sala de controlo e parece saber bastante da instalação para um civil.
- Pois mas mesmo assim não sei se conseguirá entrar na sala, não te esqueças que há a questão da leitura da palma...
- Às vezes desiludes-me, nem parece que chefias a equipe que chefias…
- Não posso considerar que este civil tenha as aptidões e conhecimentos dos membros da minha equipe.
- Pois sim mas olha que ele vai surpreender-te…
- Vamos ver… sabes o que é irónico?
- O quê?
- É que na próxima semana íamos desactivar aqueles botões…
- Já não era sem tempo, nunca percebi o porquê da sua existência e muito menos a sua manutenção… isso e a questão do fecho por uma semana… coitado do rapaz…
- Se ele gosta e conhece a instalação, como dizes, até vai achar piada…
- Sim, durante umas horas ou até um dia ou dois mas uma semana!
- Calma estamos a tratar disso… se não se conseguir curto circuitar o controlo tentaremos uma entrada na instalação, já estamos a estudar as alternativas possíveis.
- Por acaso gostava de ver quais as hipóteses que estão a colocar…
- Verás, até porque quero a tua opinião mas agora vai para sala F para junto do grupo que escolheste.
- Até já Tenente McNeelly.
- Até já Patricia … ok Miss Anderson, não faças essa cara!


Tom olhava para a parede e ponderava as suas opções… preferia entrar directamente na sala moderna mas tal poderia revelar-se mais difícil. Em todo o caso decidiu testar a ideia de filme que lhe veio à cabeça. Dirigiu-se às casas de banho existentes a um canto das camaratas à procura de pó de talco, que encontrou. Depois foi à cozinha buscar um pouco de filme do que a mãe usava para embrulhar sandes. Uma vez de posse dos dois encaminha-se para o rectângulo do lado esquerdo da parede do fundo das camaratas. Pega no pó de talco, espalha sobre o rectângulo e sopra. Como esperava, ao soprar ficou limpo, não havia impressões recentes, para seu azar. Não desanima pois, graças à sua memória fotográfica, tinha decorado o código de 7 dígitos necessário para entrar na sala de controlo antiga. Digita-o no teclado numérico e a porta abre-se. Tal como há pouco quando entrara nesta sala, acompanhado da Miss Anderson, da Miss Pedington e do Philip, repara de novo que só as luzes se acendem todos os mostradores estão inactivos. Dirige-se ao rectângulo preto na parede que a Miss Anderson usara para abrir a porta da sala de controlo actual e repete a operação com o pó de talco. Agora sim tem uma impressão visível depois de soprar. Observa a impressão e constata que a sua mão deve ter umas dimensões aproximadas. Coloca o filme sobre o rectângulo e encosta a mão no rectângulo. Ouve-se de novo:

“Access Granted, Welcome Miss Anderson”.

A porta dissimulada abre-se e os seus olhos brilham agora por outro motivo. Entra pela porta e dirige-se à consola principal onde verifica que estão registadas várias tentativas de entrada no sistema por parte do exterior mas nenhuma bem sucedida. Noutro monitor vê um relógio em contagem decrescente, está marcado 6 dias 22 horas 7 minutos e 27 segundos quando olha…

- Estou aqui fechado por uma semana?!

Diz alto para ninguém pois afinal está sozinho…


(continua)

FATifer

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Cap.3

A Miss Anderson não estava a gostar e com razão, o Mike estava a provocar o John. Tal não seria nada de muito problemático se não fosse o facto de estarem os dois aos empurrões muito perto de um botão de emergência de fecho...

-Onde está o Ross? Eu disse-lhes para terem atenção aos botões!
-Ross! Ross!
-Sim Miss Anderson.
-Deixe de contar histórias às meninas e pára-me aqueles dois no canto noroeste que ainda batem no botão de emergência!
-Sim Miss Anderson!

Mas era tarde demais o John tinha perdido a paciência com as brincadeiras do Mike e dando-lhe um valente empurrão fê-lo embater directamente no botão de emergência!
De repente começou a ouvir-se uma sirene!...

- O que é isto?
- É sirene de alarme!

Ouve-se uma voz robótica:

“Emergency sequence activated! Begin lockdown!”

A grande e pesada porta da entrada, com aquele ar impenetrável, começa a mover-se...

- Aquilo é suposto acontecer?

O Philip estava a observar, num dos monitores, a porta de entrada a fechar-se!

- Sim! Faz parte do protocolo de segurança Philip… mexam-se! Rápido! Temos que sair daqui!

A Miss Anderson dirige-se ao canto direito da sala encosta a palma da mão noutro rectângulo preto e abre-se uma porta para as camaratas.
Entretanto na sala de lazer o pânico instalara-se e todos se atropelam em direcção à saída. Os guardas nada podem fazer senão sair também, tentar controlar aquele grupo de pessoas em pânico era inútil, para além do que também não estavam com grande vontade de ficar ali dentro fechados.
Quando o Tom, o Philip, a Miss Pedington e a Miss Anderson chegaram à sala de lazer só ouviram os gritos que vinham da porta que conduzia ao hall... entraram no hall.

- Tom!
- Lisa o que é que estás aí a fazer?
- Não consigo andar…

A Lisa está num canto do hall agarrada ao tornozelo, aparentemente ter-se-ia magoado na confusão.

- É tudo a fingir pá!
- Cala-te Philip, agora não!

A porta continuava a fechar-se num movimento lento mas contínuo, como se uma porta de uma caixa forte se tratasse... Tom corre em direcção a Lisa pega-lhe ao colo, ela coloca os braços à volta do seu pescoço e, nesse instante, olham-se olhos nos olhos e ficam os dois parados...

- Tom! Tooommm!! Mexe-te pá!!

O Philip estava à porta a gritar mas o Tom continua parado naquele canto do hall, olhando nos olhos de Lisa como que hipnotizado...

- Hum?!... Lisa!?...
- Tom...
- A porta!

Tom começa a correr como pode, a porta estava quase a fechar, vendo que não chegará a tempo e que o espaço era demasiado pequeno para passarem os dois, Tom mergulha de modo a empurrar com este movimento a Lisa pela pequena abertura por onde se ouvia os gritos dos colegas, em particular do Philip. O espaço era já demasiado pequeno para ele passar... ficou no chão a olhar para a porta vendo os pés da Lisa desaparecer enquanto a puxavam do outro lado. Um instante depois a porta acabou por se fechar com um estrondo que ecoou no hall. Ouviu depois os barulhos metálicos dos fechos a atingir a posição final. Do outro lado, no corredor, todos estes sons foram abafados pelo barulho da confusão, que é grande, gritos e choros, choros e gritos... a mais inconformada parecia ser a Lisa que gritava:

- O TOM FICOU LÁ DENTRO!

E não parava de o repetir com os olhos lavados em lágrimas. Philip também não se conforma, está imóvel com o olhar fixo na porta a ouvir a Lisa ainda sem acreditar que é verdade. O seu melhor amigo está do outro lado de uma porta enorme de aço reforçado... o resto do grupo estava espalhado pelo corredor de acesso encostados às paredes tentavam recuperar o fôlego, muitas raparigas choravam abraçadas. A Miss Anderson olhava fixamente os quatro homens que estavam em fila e em sentido, à espera de uma reprimenda que não vinha. A Miss Pedington e o Mr Smith olham-se incrédulos enquanto, também eles, recuperam o fôlego.

- Bem vamos lá a acalmar ... vocês os quatro fiquem aí que já falo convosco!

Dirigindo-se depois à Miss Pedington e ao Mr Smith a Miss Anderson desabafa:

- Esta não estava no programa... mas tudo estaria bem se não fosse o facto de o Tom ter ficado lá dentro...

- Pois... e agora?
- Agora?... agora o nosso amigo Tom... está preso, porque segundo o protocolo de segurança, esta porta só poderá ser aberta daqui a uma semana. Eu bem disse para mudarem isso da última vez que mexeram nisso...
- Uma semana!!
- Pois é, uma semana...

O Tom, do outro lado ainda a olhar para porta, começava a pensar o que devia fazer, será que havia alguma maneira de comunicar com o exterior? Podia bater na porta mas já sabiam que estava ali… teria de haver um melhor meio de comunicação com o exterior, será que essa hipótese teria sido considerada?


(continua)

FATifer

domingo, 4 de janeiro de 2009

Cap. 2

Na manhã seguinte, o dia da grande visita, o pai do Philip levou-os ao liceu como tinha ficado combinado.

- Obrigado pai!
- Obrigado Sr. Tavin.
- Nada, divirtam-se!

Os alunos iam-se juntando à volta do autocarro e à porta estava a Miss Pedington e o Mr Smith, o professor de física, preparados para fazer a chamada.

- Estão todos? Vou começar a chamada!
- Anvlin, Martha
- Barlow, Lisa

E lá foram entrando e sentando-se…
No caminho, a confusão do costume num autocarro de cheio de jovens, canta-se, ouve-se música e até há quem jogue, gameboy, ds ou psp existem é para estas ocasiões… Chegados à base da montanha, passado o controlo no portão da antiga base militar, o autocarro parou e saíram.
À porta estavam uma mulher e quatro homens. Ela com um leve sorriso quase que artificial e aspecto militar, embora vestida à civil, saudou-os dizendo que seria a guia da visita. Eles fardados não disseram uma palavra mantendo-se imóveis dois de cada lado da porta de entrada. Depois de conferida a lista de participantes na visita e de uma nova chamada, a confirmar que estavam todos, lá foram entrando. Passada a porta de entrada, um imponente pedaço de aço com seis metros de altura e sei metros de largura e uma espessura considerável, e percorrido o longo corredor, com cerca de uns cem metros, chegaram à porta do bunker em si, esta com ar ainda mais sólido que a de entrada. Circular, com uns quatro metros de diâmetro e um metro e meio de espessura, feita em aço reforçado. Tom sabia estes números de cor mas uma coisa é o número outra é ver a sua materialização, estava maravilhado. Assim que entrou percorreu o espaço à procura de todos pormenores que tão bem sabia. Todos tinham entrado para um hall de entrada e a guia começou a sua explicação:

- Mais uma vez, muito bom dia, o meu nome é Miss Anderson e serei a vossa guia nesta visita. Peço-vos o favor de não mexerem em nada sem a minha autorização. Como podem ver, temos espaço para todos pois este bunker foi idealizado para albergar
- 40 pessoas!
- Exactamente. Em frente têm a sala de lazer, à esquerda a sala de refeições e a seguir a cozinha com a área de cultura hidropónica adjacente.
- Com capacidade para abastecer as quarenta pessoas por trinta anos!
- Muito bem, já vi que sabe muito sobre este bunker…
- Umas coisinhas.
- Umas coisinhas… então diga-me lá que mais “coisinhas” sabe sobre este local sr?
- Dunner, Thomas Dunner… sei que para a direita temos a biblioteca seguida da sala de exercício, à esquerda desta estão as camaratas. A sala de lazer está equipada com mesas, computadores e todo o tipo de jogos, a sala de exercício tem todo o tipo de equipamentos de treino, para assegurar que os potenciais ocupantes possam manter a forma física. A biblioteca tem numerosos volumes de diversas áreas do saber, sendo complementada com edições em formato digital englobando assim boa parte do conhecimento humano. Aaa..
- Muito bem, estou impressionada, quase que não precisava de ter vindo, ao que parece o vosso colega poderia ter conduzido a visita.

Disse a guia com um sorriso algo jocoso. O Tom retribuiu o sorriso e acrescentou:

- Ainda não falei da sala de monitorização, localizada a seguir às camaratas, está concebida para controlar todo o bunker, sistemas de climatização gastos de energia, etc e é também aqui que chegam as informações recolhidas por sensores de todo o tipo colocados no exterior que servem para monitorar parâmetros como: nível de radiação, temperatura, humidade, etc. Esta sala pode ser considerada o cérebro desta instalação.

- Estou realmente impressionada. Muito bem Sr. Dunner.
- Eu também Tom, não sabia que sabias tanto sobre este bunker.

Disse a Miss Pedington, o que deixou tom extremamente orgulhoso mas ao mesmo tempo algo embaraçado.

- Aaa… eu gostos destas coisas.
- Pois há meses que não se calava com esta visita.

Acrescentou o Philip, só mesmo para ver se o Tom ficava mais vermelho do que já estava

- Muito bem, se me seguirem por aqui poderemos começar a ver o que o Sr. Dunner tão bem descreveu. Por aqui, vamos por aqui…
- Chama-me Tom por favor

Pediu o Tom ao passar perto da guia que acenou a cabeça e sorriu.

Seguiram pela direita, foram entrando na biblioteca onde foram admirando a quantidade de livros todos arrumados em várias estantes, cada uma com o seu tema e por ordem alfabética, como não poderia deixar de ser. Na sala de exercício viram e puderam experimentar, com autorização da guia, alguns dos aparelhos. Ao longo do percurso a guia foi chamando a atenção para este ou aquele pormenor e o Tom foi continuado a brilhar mostrando que, na realidade, conhecia bem aquele espaço embora nunca o tivesse visitado antes. Passaram depois às camaratas, num dos cantos da sala vê-se a porta da sala de comando, Tom pergunta se não a vão visitar ao que Miss Anderson responde que não, não faz parte da visita. Tom não consegue esconder o seu desapontamento. A visita continua pela cozinha e zona de cultura hidropónica. Passaram pela sala de refeições a caminho da à sala de lazer onde todos se sentiram à vontade uns aproveitando para descansar nos sofás outros experimentando, também com a autorização da guia, as diferentes máquinas de jogos que iam desde flippers a mesas de snooker.
Miss Anderson pede aos guardas e ao Mr Smith para vigiar o resto do grupo e depois chama a Miss Pedington e o Tom.

- Como disse à pouco a sala de controlo não faz parte da visita mas vi como o Tom ficou desapontado por isso, pelo que pedi autorização e fui autorizada a mostrar-vos mas só a vocês.
- Obrigado! O Philip também pode ir?
- Aaa, ok pode Tom.
- Obrigado Miss Anderson.
- O Tom merece, como prémio.

Seguem os quatro pelas camaratas e dirigem-se a umas das extremidades da sala e param à frente da porta. Miss Anderson insere o código de 7 dígitos no teclado numérico e a porta abre, passam pela porta e entram na sala de controlo.
O Tom tinha comentado com o Philip que tinha havido o cuidado de se ir actualizando tudo o que fazia parte desta instalação desde os livros aos computadores na sala de lazer (aqui tinham gostado de ver que algumas das máquinas de flippers ainda eram as que originalmente lá tinham sido colocadas) mas nesse sentido esta sala de controlo tinha um aspecto antigo. A sala de controlo parecia ter sido mantida tal e qual como era originalmente.
A guia sorriu perante a reacção dos dois amigos…

- Espantados?
- Sim… esperava…
- Algo mais moderno, não era?
- Pois…
- Esta é a sala de controlo original desta instalação.
- Sim é o que parece…
- Tom o que se passa?
- Nada Miss Pedington, estava à espera de algo mais moderno, só isso.
- Vá Tom, não me desiluda agora…
- Como assim Miss Anderson?

A guia sorri dirige-se à parede lateral do lado esquerdo da sala, encosta a palma da mão num rectângulo preto e ouve-se:

“Access Granted, Welcome Miss Anderson”.

Uma porta dissimulada abre-se para algum espanto de Miss Pedington. Os olhos de Tom brilham.

- Assim está melhor, olha pra isto Philip!
- Estou a ver… espectáculo!!
- Sabia que iam gostar… Como podem ver daqui pode-se saber tudo o que se passa lá fora e cá dentro, tem-se o controlo de toda a instalação.

Em contraste com os monitores CRT e mostradores analógicos da sala de controlo original, nesta tudo era digital e os TFT estão por todo o lado.

- Olha os nossos colegas...
- O que é que se passa ali?
- É o Mike está sempre a fazer asneiras...
- Pois mas...

(continua)

FATifer

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Cap. 1

- Tom!
- Tom!
- Oh Tom!
- Thomas Andrew Dunner o pequeno almoço está na mesa!
- Ok mama estou a descer, estou a descer…
- Bom dia mama.
- Bom dia Tom.
- Senta-te e come os teus cereais.
- Onde vais? Não acabaste!
- Sorry mama, estou atrasado! Até logo!
- Até logo filho e tem cuidado nessa bicicleta!
- Sim mãe…

O dia começara como qualquer outro dia na vida de um típico rapaz americano como o Tom. Ele adora fazer o percurso até ao liceu de bicicleta, o facto de estar atrasado é apenas mais uma boa desculpa para fazer os atalhos que tanto gosta de explorar. Passar pelo jardim do Sr. Watson e fugir ao pluto, o cão que detesta bicicletas, depois passar entre as duas vedações dos Redding e dos Greening um espaço tão apertado que mal cabe o guiador e finalmente descer a rampa nas traseiras do liceu que sempre achou digna de integrar uma prova de downhill. As aulas começam às nove mas com os atalhos ainda tem tempo para ir ao cacifo guardar a mochila, não vale a pena andar a carregar todos os livros…
Tom adora computadores mas a primeira aula de hoje é de história. A professora é tão bonita que tem dificuldade em concentrar-se no que diz…

“Trriiiinnngg”

- Ok meninos e meninas é tudo por hoje amanhã não se esqueçam de chegar a horas porque vamos à visita de estudo e o autocarro não espera por dorminhocos!
- Visita de estudo?
- Sim pá, amanhã vamos ao bunker, não me digas que te esqueceste?!
- Ah, ya…
- Ficas mesmo noutro planeta quando estás nesta aula.
- Quê? Tas tu praí a dizer?

O Philip sorri, conhece o amigo e, mesmo que não conhecesse, bastaria olhar para ele para ver que parecia hipnotizado naquela aula, ao ponto de não reagir quando a professora relembra a visita de estudo que mais anseia desde o princípio do ano. Sim, amanhã vão visitar um bunker especialmente construído, no tempo da guerra fria, no qual era suposto poder-se viver durante um eventual inverno nuclear.

- Acorda pá!
- Deixa-te de coisas…

Os dois amigos percorrem o corredor até aos respectivos cacifos ao lado um do outro, como não poderia deixar de ser, trocam os livros vão para a próxima aula, ciências naturais.
O resto do dia corre normalmente e à noite os dois amigos conversam pela net:

- Viste como a Lisa te olhava na aula de Filosofia hoje?
- Philip tas a ver coisas, a Lisa nem sabe que eu existo… e além disso é muito magra…
- Quê? Deves estar a gozar!! Quem me dera que ela me olhasse como olha pra ti!
- Ok pá, se tu dizes, por mim podes ficar com ela, é toda tua! :P
- Não tens emenda tu…
- Se tu dizes… passando a coisas mais interessantes, mal posso esperar pela visita de estudo de amanhã!
- Pois, pois, queres dizer mal podes espera pela oportunidade de impressionar a miss Pedington com todas as cenas que sabes daquele bunker!
- Quê? Tás parvo? Eu quero é ver o bunker!
- Pois, pois me engana que eu gosto…
- Philip nem tudo no mundo gira à volta de uma mulher sabias?!
- Ya meu, ok tu é que sabes…
- Olha vou mas é jogar que tu estás a irritar-me!
- Se vais jogar ainda te vou irritar mais, hoje ninguém me bate sou o rei dos heashots!
- Pois, pois, deixa-me entrar que eu mostro-te quem é o rei!

E ficaram mais uma hora matar-se virtualmente até que foram obrigados a deita-se pois, no dia seguinte, têm que chegar cedo ao liceu.

(Continua)

FATifer