terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Ao lado do Paraíso

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Eu tenho uma daquelas máquinas fotográficas idealizadas para pessoas como eu: que delas o que sabem, basicamente, é que se carrega num botão e o que estiver num espacinho restrito na frente fica lá escarrapachado.

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Nem sempre o resultado tem as cores que eu tinha visto... ou a magia que eu não tinha...
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Ficam algumas, de um local que já em tempos me disse muito... que agora, ainda que lhe continue a admirar a beleza, não passa disso mesmo: belos rectângulos escarrapachados na frente de uma qualquer lente, ou de um qualquer olhar.
Ainda assim, gosto muito delas.

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Nota:
Não foram editadas. Estão exactamente como a máquina as viu.

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quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Mais um que conto - parte 2


Joana entrou no carro e arrancou, sabia que ele a apanharia até porque não lhe apetecia andar depressa, mesmo sabendo que aquele carro não tinha sido feito para andar devagar. Poucos minutos depois Miguel já a ultrapassara acenando-lhe adeus. Quando chega a casa está a lareira acesa e dois copos de vinho lado a lado no chão… vai ser uma longa conversa…
Miguel entra na sala com um prato com queijos. Joana sorri e estende-lhe um copo.

- … tantos mimos, estás mesmo carente homem!
- Carente? Tens noção que o que dizes é paradoxal?
- E tu tens noção que te conheço? Quando mais queres atenção mais atenções tens, sempre foste assim…
- …
- Olha, aí tens um bom princípio de resposta à pergunta que dizes que te atormenta. Sim, porque se fosse a tua história que procuravas, bastava-te abrir os álbuns de fotografias…
- Pois, como disseste a pergunta está noutro plano… vim pelo caminho a pensar no que disseste e tens razão.
- Claro que tenho razão! O que me espanta é ter de ser eu a dizer-to… a angústia que te vi no olhar…
- Sim… não há motivo… eu sei… mas talvez por isso mesmo…


Estavam ambos sentados no chão em frente à lareira, copos na mão enquanto ia comendo os pedaços de queijo que ofereciam um ao outro.


- Se isto fosse um daqueles filmes românticos, lamechas, e fosses tu uma donzela sonhadora, dizia que a resposta que te chegaria seria: “és a minha outra metade” e pronto!
- Pois mas..
- Mas não és uma donzela sonhadora, és um lindo homem que não devia ter essas dúvidas existenciais… ou pelo menos não devia deixar que elas o afectassem a este ponto, pois tê-las pode não só ser inevitável como saudável.
- Com uma mulher assim não preciso de psicólogo, na verdade.
- Engraçadinho, não fujas à questão…
- Não estou a fugir…
- O que motivou a tua inquietação?
- …
- … diz lá que sei que já analisaste e sabes muito bem a causa.
- …
- … não me digas que ainda é por causa daquela criança?
- … sim…
- Oh Miguel, tu fizeste tudo o que podias por aquela menina, tu és um excelente cirurgião! Não havia mais nada que pudesse ser feito, todos os teus colegas concordaram…
- Havia sim! Eu podia…
- Miguel! Olha para mim!
- …mas
- Tu és apenas um ser humano, dotado de um dom especial e muito talento mas humano ainda assim.
- Joana… ela…eu…
- Miguel, já te disse para não te culpares!
- Eu sei mas sabes que detesto errar.
- Mas tu não erraste homem! Todos os teus colegas confirmaram que fizeste tudo o que podias.
- Mas não foi suficiente…
- Miguel, eu sei que nunca te tinha morrido ninguém na mesa de operação mas…
- Mas tenho de aceitar, não é? As pessoas morrem…
- Por mais que te custe sim, é verdade…
- Oh Joana mas tu não olhaste nos olhos dela…
- Mas vi os olhos da mãe que, mesmo com toda a dor ainda me agradeceu porque tu tinhas feito o possível para salvar a filha. Ela estava muito mal… aliás só de pensar nisso até fico mal disposta.

Miguel coloca o copo vazio ao pé do copo de Joana que estava no chão perto do prato e abraça-a. Ficam os dois a olhar as chamas…



FATifer

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Por... Aqui... Vagueando... Quando...

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... e se se encontra um momento perfeito...?
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É inevitável que se vá...
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...ou poderá guardar-se para sempre?
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domingo, 31 de Janeiro de 2010

Boa semana!

Enquanto não publico a parte 2 do “conto” que comecei, deixo-vos com esta foto que tirei da minha varanda já há umas semanas atrás…


Espero que ela vos transmita a mesma sensação de paz e bem-estar que senti e me fez ir buscar a máquina para tentar guardar o momento…

Boa semana para todos,
FATifer

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Mais um que conto - parte 1

Olhou-se no espelho e perguntou a si mesmo: “quem és tu?”, como que a querer ver e não só olhar… molhou a cara com a água que aprisionara nas mãos em concha. Fechou a torneira e voltou a olhar-se no espelho. “Quem és tu?”, repetiu para si mesmo, mesmo sabendo que nem tentaria responder-se…
Entra no quarto… um raio de luz, que insiste em passar pelas frinchas do estore mal fechado, desenha os contornos de um corpo feminino por baixo dos lençóis mas nem essa visão afasta a pergunta de si para si e que não quer responder… “quem és tu?”...
Volta para trás, vai até à cozinha, abre o frigorífico e tira um iogurte líquido: laranja, cenoura e ginseng, “depois disto tudo ainda tem iogurte?” Pensaria, se não estivesse completamente absorto em não responder à pergunta que continua a martelar-lhe a mente desde que acordara… “quem és tu?”. Bebe o iogurte mecanicamente enquanto prepara um copo de leite e umas torradas bem tostadas como ela gosta…


- Pequeno almoço na cama… que bom…
- …
- Que cara é essa?
- A minha…
- Miguel... eu conheço-te… o que tens?
- Nada…
- Prefiro que me digas que não queres falar…
- Não é nada. Já passa…
- As torradas estão óptimas, não queres uma?
- Não. … Obrigado…
- Onde vais?
- Já volto…


Desceu até à garagem e entrou no carro, os pneus chiaram com o arranque brusco. Se o carro fosse um tudo nada mais alto teria batido na porta que ainda estava a subir quando passou.
Era domingo, dia dos aselhas mas também de menos trânsito, conduz aparentemente sem destino, não pensa onde vai apenas vai. Só tem um objectivo, o mar, tem de ver o mar.

Chegado ao Guincho estaciona o carro, sai e fica parado olhando o mar revolto. O vento norte afaga-lhe a face e ecoa nos seus ouvidos num uivo familiar…

“Quem és tu?”… a pergunta parece não o querer deixar…


- Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Virou-se repentinamente e olhou-a.

- Joana?! Como adivinhaste? Como vieste até aqui?
- Eu conheço-te Miguel, somos um… e vim de moto.
- … esse poema…
- O nosso favorito… só Pessoa consegue escrever assim!
- Como soubeste que precisava de o ouvir
- Somos um… o teu olhar disse-me.

Abraçam-se.

- Por vezes esqueço-me que és parte de mim, desculpa.
- … e agora já podes dizer o que tens?

Ele sorri e olha-a nos olhos… beijam-se.

- Acordei com uma pergunta que a que não consigo dar uma resposta que me satisfaça…
- …e qual é?
-“Quem és tu?”

Ela sorri.

- Por momentos ainda pensei que fosse algo de grave …
- … não gozes.
- Miguel, quantas pessoas achas que realmente se satisfazem, no sentido que sei que te referes, com as respostas que encontram para essa pergunta?
- Não sei…

Viram-se ambos na direcção do mar e ficam a contemplar em silêncio…

- A pergunta está errada!
- O que queres dizer com isso Joana?
- Quero dizer que devias antes perguntar-te: “quem queres ser tu?”.
- …
- …e que tal se continuássemos esta conversa à frente da lareira? Gosto muito do Guincho mas está frio!
- Ok, leva o carro que eu levo a moto.
- Mas não tens o teu capacete nem blusão…
- Estão na mala do carro, faz o que te digo que estás a tremer.
- Sim meu senhor!



FATifer

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

(In) glória

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Há uns dias assisti a uma palestra de um padre... que adorei. Aliás, eu devo ser a "atua", descrente, whatever, mais fascinada de cada vez que um padre abre a boca. Gosto mesmo de os ouvir falar e (sem ironias) raramente os oiço sem que fique a pensar na mensagem que tentaram transmitir, o que considero ser mesmo muito bom.
A certa altura ele mencionava a importância de sermos e de nos sentirmos seres humanos melhores. A capacidade de darmos, de nos darmos em beneficio de alguém que necessita (isto a propósito dos voluntários que foram ajudar no Haiti).
Não sei se foi influenciada por isto mas... a verdade é que neste fim de semana me dispus a fazer algo que queria mas vinha adiando há anos: dar sangue. Parece-me ser algo muito pequenino mas também sei que é com muitos algos muito pequeninos que se consegue fazer algo imensuravelmente grande como é o salvar uma vida.
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Depois do inquérito em que se pretende fazer um pequeno historial sobre a minha saúde e até sobre comportamentos (que imagino façam sentido) e depois da picadela do dedo para ver já-não-me-lembro-o-quê sobre os glóbulos vermelhos (que disse ao enfermeiro que não tinha doído nada mas menti um cadito), é a vez do médico fazer mais umas perguntas, se alguma vez tinha desmaiado e blá-blá (obviamente que não!), medir a tensão arterial para então, finalmente, cumprir o acto de boa vontade e me tornar dadora.
O aparelho mediu três vezes e três vezes deu erro. De cada vez o médico só dizia "O aparelho estava a funcionar bem, não sei porquê mas não lhe apanha a tensão" e eu lá lhe fui respondendo "Mas eu garanto-lhe que estou viva!". Depois da substituição do mesmo por um daqueles antigos, de estetoscópio nos ouvidos, pela suspeita de avaria... afinal quem estava avariada era mesmo eu! "Sente-se mesmo bem?!" "Ahh?! Sim... perfeitamente... porquê?" Mas já começando a duvidar... "É que a sua tensão é 9-7 e o mínimo para poder dar sangue é 10... vai ter de voltar outro dia, depois de tomar um bom café!"
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Naquele momento, além de desiludida, fiquei com a sensação amarga de que se me acabava o fim de semana da boa vontade de forma completamente inglória!
Para mais, agora receio que tão depressa não passe mais nenhum padre pela minha vida!
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P.S. (Ou, com boa vontade, moral da história):
É curioso que, ainda que não o seja, só o facto de ter ido completamente disposta a fazê-lo, já me fez sentir uma pessoa melhor e percebi isso pelo facto de, realmente, ter ficado decepcionada por o não ter podido fazer :)
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quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Uma boa foto?…

Tirada da mesma janela que a anterior esta já não sei se será uma boa foto… eu tentei mas…


… e não se assustem os mais sensíveis que o pequeno insecto estava do outro lado do vidro!

FATifer

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Uma foto....


Enviaram-me um conjunto de fotos da National Geographic e escolhi esta porque foi a que mais me cativou…

O que vos diz esta foto?

Acho que se pode traçar várias analogias… o que se vê depende, como sempre, da forma como se olha (que é condicionada pelo nosso estado de espírito, a nossa forma de estar, a forma como correu o dia, etc, etc…)

Hoje nesta foto vejo que, por mais crítica que pareça uma situação, algo de belo sempre fica… (só é preciso saber ver!)


Continuação de boa semana para todos,
FATifer